PESCARIA EM IGUAPE E CANANÉIA

PESCARIA EM IGUAPE E CANANÉIA

“O mar! O seu poder mágico, nós o estamos sentindo agora, o homem sentiu-o sempre, porque o mar, na sua amplitude e na sua mobilidade, é a mais larga e potente expressão da terne e incessante aspiração humana para a liberdade”. (Afonso Arinos).

Iniciamos a viagem pela rodovia Raposo Tavares – SP 270 – até a cidade de Sorocaba. Ali, tomamos à direita, rumo a Iguape. Atravessamos o rio Ribeira de Iguape e, logo depois, entramos na cidade. Entramos na fila da balsa para irmos à Ilha Comprida. Já na ilha, fomos até a escuna. Estavam nos esperando o seu proprietário, Gumercindo Duarte, sua esposa, Mafalda e o ajudante, marinheiro, José Luiz. O senhor Duarte e esposa já eram conhecidos do Adalberto.

Saímos dali às 9h, rumo a Cananéia, parada estratégica para reabastecer, comprar gelo, tomar informações sobre a navegabilidade do local onde queríamos ir: Marujá e Ariri. O senhor Duarte e o José Luiz, ainda não tinham navegado naquela região. Aquelas vilas ficam no final da ilha do Cardoso, três horas de viagem de Cananéia.

Quando termina a ilha de Cananéia e a ilha Comprida, temos o mar de Cananéia e a barra: passagem para o alto mar, em direção à ilha do Bom Abrigo, local de pescarias. Logo abaixo, após a ilha Comprida, começa a ilha do Cardoso, imensa formação rochosa, com altitude superior a 600 metros. É uma reserva ecológica muito importante para o ecossistema. A vegetação é exuberante, praticamente intocável. Só alguns caiçaras vivem ali. Há, também, algumas edificações da administração da reserva.

Ainda no mar pequeno, entre Iguape e Cananéia, fizemos a nossa primeira refeição a bordo da escuna “Baobá”. Para chegar até a ilha do Bom Abrigo tem que passar pela barra, onde está a arrebentação; o mar é mais bravo, as ondas são altas, dificultando a navegação. Da barra até à ilha leva-se de 1h30 a 2h, conforme a situação do mar. Não fomos lá, é preciso ter um pouco de coragem.

O nosso destino era o rio Ariri. O senhor Duarte e o José Luiz seguiram atrás de uma embarcação menor até Marujá. O canal entre a ilha do Cardoso e o mangue é lindíssimo, chama-se canal de Ararapira, nome do rio que marca a divisa dos Estados de São Paulo e Paraná.

Durante a viagem passamos pela ilhota de Casca, ela faz parte da reserva ecológica da ilha do Cardoso. Ali a navegação é perigosa: o canal é estreito e raso: 6 a 7 pés. O fundo é de pedras. É preciso ter muito cuidado, atenção no sonar e firmeza no timão.

Depois de três horas navegando pelo canal de Ararapira, avistamos a vila de Marujá, lugar paradisíaco, com algumas casas antigas, pousadas, barzinhos, pouco conforto. Esta vila fica quase no fim da Ilha do Cardoso. Do outro lado tem uma linda praia com 16km de extensão.

Aportamos no píer para algumas informações com o pessoal que mora na vila. Ficamos sabendo que, em frente, do lado do mangue, há dois rios: o Iririu de cima e o Iririu de baixo. Disseram-nos que ali era bom para pescar.

Saímos do píer e apoitamos no canal, próximo da foz dos rios, para pescarmos. Tentamos com iscas de camarões e sardinhas. O José Luiz foi armar a rede na embocadura do rio, ela tem 300 metros de comprimento, tamanho pequeno.

Nada de peixes, só o Aquiles pescou dois bagres pequenos. Lá pelas 9h eu fisguei um peixe de bom tamanho. Porém, a vara não estava nas minhas mãos, mas apoiada na beira da escuna. Larguei imediatamente a outra. Quando a peguei estava com o peixe fisgado, a linha estourou. Verifiquei que a fricção do molinete estava muito apertada, descuido do pescador. Às 22h voltamos a ancorar no píer de Marujá para jantar e dormir. Durante o trajeto, o Adalberto foi colocar a sua vara em cima da lona que cobre o convés da escuna, porém, tropeçou no “cavalo branco”e deixou-a cair no mar. Ficou chateado e com razão. Antes de dormir comemos muitos camarões ao bafo e mariscos: estavam deliciosos.

No dia seguinte, levantamos cedo, tomamos café e saímos de escuna para conhecer a praia que fica do outro lado do canal.

Voltamos ao Baobá para pescar no canal, na foz do rio Ariri, quando chegamos, resolvemos entrar no rio. Navegamos até à vila que tem o seu nome, um lugarzinho encantador. Aportamos para conhecer o lugar, enquanto o senhor Duarte abastecia a escuna com água potável. Voltamos a escuna e subimos o rio mais um pouco para pescar no chamado costão, numa curva próxima dali. A parada foi curta, não conseguimos suportar as mutucas. Peixes que é bom, nada.

Deixamos o local, voltamos ao canal do Ararapira, na ilha do Cardoso. Almoçamos, fomos descansar. A escuna iniciou a viagem de volta. Ariri foi o ponto extremo da viagem.

Às 17h estávamos passando pela ilhota do Casca, já de regresso, o senhor Duarte apoitou a escuna em um lugar chamado “trincheira”, para pescarmos. Tentamos e nada, não era mesmo o nosso dia. Na verdade, não vimos ninguém pescar nada.

Levantamos a poita, seguimos para a barra, entre as ilhas do Cardoso e Comprida. Apoitamos, tentamos, tentamos… e nada de peixes. Entramos no canal do Mar Pequeno entre as ilhas Comprida e Cananéia. Atracamos no píer de Cananéia, já estava escurecendo. Em frente ao píer há diversos barzinhos. A escuna foi a atração para diversos turistas que ali estavam. Depois de bebermos algumas cervejas e comer camarões, conversamos bastante, inclusive com a participação muito agradável do senhor Duarte e do José Luiz.

O Adalberto nos levou até a praça da cidade para mostrar as coisas antigas que ali estão, desde o tempo da colonização e a casa onde seu avô materno tinha um armazém. Parte daquelas edificações estão tombadas pelo Patrimônio Histórico do Estado.

Na madrugada, lá pelas 2h, tive um sério problema com minha colite. Foi prá valer. Fui várias vezes ao banheiro, tomei duas cápsulas de floratil para neutralizar o mau. Fiquei acordado no convés até às 4h da manhã. Neste espaço de tempo, aconteceu comigo um fato inusitado: senti um gosto ruim pelo remédio engolido, comecei a sentir ânsia de vômito. Fui na beira da escuna e, ao abrir a boca, a peça superior da minha dentadura caiu no mar, fiquei só com a inferior. Ao clarear do dia, contei o fato aos companheiros; a gozação foi a maior possível. Até o Adalberto esqueceu-se da perda da sua carretilha Daiwa e de seus óculos Rayban, estes quando matava mutucas no Ariri. Agora vou ter que aguentá-los.

O Laerte, amigão, disse que me faria uma sopa caprichada. Agradeci sua prestimosa atenção. No almoço todos comeram a sopa de macarrão e legumes feita pelo Laerte, solidários. Estava ótima.

No terceiro dia, a escuna levantou âncora e foi atracar no píer da CEAGESP, para uma limpeza geral. Aproveitamos para pesquisar os preços dos pescados e dos camarões, nas peixarias ali existentes.

Às 8h30 saímos do píer e fomos até a barra para pescar e, principalmente, esperar os barcos dos pescadores de camarões que por ali deveriam passar de volta do mar após as 11h. De um deles compramos o que tinha pescado, pouco mais de 20kg. Voltamos para Cananéia para comprar gelo e mais camarões. Todos nós compramos um pouco mais de camarões, pois, o preço era bom e a oportunidade imperdível.

Saímos de Cananéia às 13h rumo a Iguape. No percurso fomos comendo camarões preparados pelo Laerte e pelo senhor Duarte. Eu como não podia mastigar e com colite, ficava olhando, sentindo o prazer com que eles saboreavam aquela iguaria.

De volta a Iguape, passamos pelos bairros de Pedrinhas e Ubatuba, ambos na ilha Comprida. Às 18h atracamos no píer do Yat Club, onde a escuna permanece.

Tudo em ordem, o Adalberto nos levou para conhecer o hotel do seu amigo Paulo. Fica na praia, lado esquerdo do boqueirão. Fomos apresentados e recepcionados, conhecemos as instalações, gostamos e prometemos um dia lá voltar.

Novamente na casa do senhor Duarte e de dona Mafalda, jantamos uma macarronada muito gostosa. O Paulinho saiu antes, foi colocar a Ibiza na fila da balsa. Quando atravessamos o canal já eram 10h da noite.

A distância de Prudente a Iguape é de 665km. O tempo gasto em ambos os sentidos, foi de 9h, mais ou menos.

A nossa primeira parada foi no posto em Itapetininga, depois em Paranapanema, onde tomamos café com leite e compramos alguns queijos de pescocinho. Não paramos mais até chegar, às 10h30, no pátio do Esqueminha.

“ A virtude é o primeiro título de nobreza; de um homem, não considero o nome e sim as ações”(Molière).

LOCAL: Iguape e Cananéia SP – Mar Pequeno
DATA: 12 a 16/11/93

João Camarini – Professor e pescador.

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